sábado, 18 de fevereiro de 2012

Desejo

Psicologicamente, o desejo pode ser definido como uma vontade, um impulso do indivíduo em direção à algo ou alguém, enfim: um querer. Esse desejo é aquilo que nos movimenta, nos motiva e nos encaminha. Pode ser percebido pelo ego desde um simples interesse controlável, até uma compulsão escravizante.

Essa energia do desejo é como se fosse um fogo. Esse fogo é capaz de queimar e corroer a alma humana, e é capaz de ser o gerador de grandes obras. É a própria libido. Mas qual é a diferença entre um desejo que motiva alguém a roubar, trair, matar, estuprar, violentar, ou a beber, comer, comprar, fumar, jogar e transar compulsivamente e um desejo ético, criador, amoroso, de fé, de cooperação, e assim por diante?

Fica claro que existem desejos e desejos. Alguns mais brutos, outros mais lapidados. Alguns escravizantes, outros libertadores, e a principal diferença entre eles é sua fonte de origem.

Os desejos provindos exclusivamente do ego acabam por ser desejos “egoístas”, ou seja, desejos em busca de auto satisfação. É um desejo que procura exclusivamente o prazer e a satisfação de uma necessidade. E a medida que eu o alimento, ao invés de satisfazê-lo permanentemente, aumento minha necessidade. Vamos pensar nas práticas consumistas como exemplo: se desejo uma bolsa vermelha, vou lá e compro. Esse desejo de consumo fica satisfeito por um tempo. Logo ele volta, e se dirige à um outro objeto qualquer. Pode ser que se vincule à uma bolsa marrom. E vou lá, e compro. E isso torna-se um ciclo. O desejo nunca é totalmente satisfeito. O ato de comprar o alivia por um breve instante.

Não sou contra a satisfação de desejos egóicos. Não vejo mal algum em consumir. Mas desde que isso não seja feito desvairadamente. Enquanto comprarmos uma bolsa porque temos interesse nela, tudo bem. O problema é quando somos obrigados a comprar e a comprar incessantemente porque um desejo imperativo nos obriga a tal. Isso é escravidão. E aí temos que ter um ego suficientemente forte, que saiba dizer não, para que esses desejos possam se transformar em energia criativa, lapidada e desenvolvida.

Para testar a natureza de um desejo, basta frustrá-lo. Fazendo isso, se ele se tornar tirânico, pode saber que se trata de algo precariamente desenvolvido. Se tornam verdadeiros “demônios” dentro de nós. E nós ficamos possuídos por eles. Satisfazer esse tipo de desejo nada mais é do que acalmar (temporariamente) esses imperativos tirânicos.

Mas alimentá-los apenas mantém uma dinâmica repetitiva de DESEJO – SATISFAÇÃO – FALTA. Para transformar essa energia, volto a dizer, é necessário ter auto-controle. É poder ser forte o suficiente para aguentar o fogo corrosivo até que ele se transforme.

O problema no mundo hoje é que as pessoas se sentem muito cheias de direitos à satisfazer suas vontades, e a se encherem de prazeres e recompensas. Aliás, a coisa está pior que isso. Elas se sentem no direito de exigir que o mundo satisfaça suas vontades. E o senso de responsabilidade (dever) para com o mundo fica muito empobrecido. Confundem felicidade com satisfação de desejos imperativos. E aí vira uma confusão.

A felicidade só pode vir através do desejo regenerado, criativo e responsável. Um desejo amoroso que cria (ao invés de repetir). Um desejo que me leva a deixar no mundo aquele pedaço do meu ser que só eu tenho. Como se estivesse cumprindo com o meu papel nessa vida que me foi dada. Esse desejo é aquele provindo do self (o centro organizador da psique), e desenvolvido (transformado) com a ajuda da consciência.

Esse desejo regenerado nos conduz às coisas que realmente importam nessa vida. Nos desapegamos de futilidades, que nada mais fazem do que nos desviarmos do caminho do desenvolvimento humano.

Tags: alcoolismo, compulsão, desejo, ego

domingo, 1 de janeiro de 2012

O Amor


O Amor...
No Simpósio, de Platão, Sócrates diz:
Uma pessoa que pratica os mistérios do amor estará em contato não com um reflexo, mas com a própria verdade. Para conhecer essa bênção da natureza humana, não se pode encontrar auxiliar melhor... do que o amor.

Durante toma a minha vida, comentei sobre o amor de mil maneiras diferentes, mas a mensagem é sempre a mesma. Apenas algo fundamental precisa ser lembrado: não se trata do amor que você acha que é amor. Nem Sócrates está falando desse amor nem eu estou.

O amor comum que você conhece nada mais é do que um impulso biológico; ele depende de sua química corporal e de seus hormônios. Ele pode ser alterado muito facilmente... uma pequena mudança em sua química e o amor que você considerava como a "verdade suprema" simplesmente desaparece. Você tem chamado a sensualidade de "amor". Essa distinção tem de ser lembrada.

Sócrates diz: "Uma pessoa que pratica os mistérios do amor...". A sensualidade não tem mistérios, ela é um simples jogo biológico. Todo animal, todo pássaro, toda árvore o conhece. Certamente o amor que tem mistérios será totalmente diferente do amor com o qual você está familiarizado

O amor que pode se tornar um contato com a própria verdade emerge somente a partir de sua consciência; não a partir de seu corpo, mas a partir de seu mais íntimo ser. A sensualidade emerge a partir do seu corpo, o amor emerge a partir de sua consciência. Mas as pessoas não conhecem a própria consciência, e o mal-entendido continua: a sensualidade corporal é tomada como amor.

Muitas poucas pessoas no mundo conhecem o amor. Essas pessoas são as que se tornaram silenciosas, pacíficas... E, a partir desse silêncio e dessa paz, elas entraram em contato com o seu ser mais íntimo, com a sua alma. Uma vez em contato com a sua alma, seu amor se torna não um relacionamento, mas simplesmente uma sombra sua. Não importa onde você ande, com quem você ande, você está amando permanentemente.

No momento, o que você chama de amor está endereçado a alguém, confinado a alguém. E o amor não é um fenômeno que possa ser confinado. Você pode tê-lo em suas mãos abertas, mas não em suas mãos fechadas. No momento em que suas mãos se fecham, elas ficam vazias. No momento em que elas se abrem, toda a existência fica ao seu alcance.

Sócrates está certo: aquele que conhece o amor verdadeiro também conhece a verdade, pois eles são somente dois nomes para uma só experiência. E, se você ainda não conheceu a verdade, lembre-se de que você também não conheceu o amor.

Osho
do livro Amor, Liberdade e Solitude, Editora Cultrix, 2006

terça-feira, 19 de julho de 2011

Cummings

Dia desses assisti a um filme em que a personagem de Cameron Diaz declamava a poesia abaixo para sua irmã. Rapidamente providenciei em postá-la aqui. Espero que gostem!

"Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for, você vai, minha querida
Não temo o destino
Você é meu destino, meu doce
Não quero o mundo pois, beleza
Você é meu mundo, minha verdade
Eis o segredo que ninguém sabe
Aqui está a raiz da raiz
O broto do broto
E o céu do céu
De uma árvore chamada vida
Que cresce mais do que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder
E esse é o prodígio
Que mantém as estrelas à distância
Carrego seu coraçao comigo
Eu o carrego no meu coraçao".

E.E. Cummings

terça-feira, 28 de junho de 2011

Sede


Minha sede de viver não cabe
nos espaços que frequento,
Não cabe em mim,
Cabe a mim

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Simples

Café preto depois do almoço
(ou a qualquer hora)
Água natural
Fruta colorida

Sorriso de amigos
Abraço apertado
Beijo de chegada e despedida
Sentir saudades

Banho no mar
e gosto de sal
Pisar na grama descalça

Cumplicidade no olhar
Lealdade nas ações
Sinceridade

Aperto de mão
Consolar no ombro amigo
e também ser consolado

Cachorro feliz
Chocolate Laka
Liberdade

Brilho de estrela
Gotas de chuva
Festa de sol

Ler Clarice
Sentar e pensar
Nadar e pedalar

Brincar de viver
Ser feliz
e nada mais

domingo, 28 de junho de 2009

Clarinha

"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

Portas trancadas de portas abertas

Eu tranco a porta
pra todas as mentiras
pra toda hipocrisia
pra toda vilania
pra toda inimizade
pra toda ilealdade
pra toda tirania

Eu tranco a porta
para as guerras
para os conflitos
para os desacordos
pro desamor
pro o ódio
pra injustiça

Eu tranco a porta
para a desesperança
para a vingança
para a rejeição
para a corrupção
para o despudor
para a incompreensão

Eu tranco a porta
para o desprezo
para a indiferença
para o falso
para o leviano
para a estupidez
Eu tranco a porta
para a infelicidade.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

07/02 comemorado em 08/02

"Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir. Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende. Amigo a gente sente! Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar. Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende. Amigo a gente entende! Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar. Porque amigo sofre e chora. Amigo não tem hora pra consolar! Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade. Porque amigo é a direção. Amigo é a base quando falta o chão! Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros. Porque amigos são herdeiros da real sagacidade. Ter amigos é a melhor cumplicidade! "
(Machado de Assis)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Dolce, dolce


"... que pensamento deverá ser para mim razão, garantia e doçura de toda a vida que me resta! Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas..."

(Nietzsche. In Gaia Ciência)

Só de Sacanagem

video

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Amote

Pelo sorriso largo e verdadeiro
Pela pele
Pelo franzir no canto da boca
quando ri
Pela sábia sabedoria
Pela humildade
Pela simplicidade
Pelos fios de cabelo
de cor contrastante aos meus
Pelo desenho dos olhos
vencidos pelo sono
Pelos passos acertivos
Pelas sardas-estrelas
Pelos dedos a dedilhar
doces harmonias
Pela cadência da voz
rasgando o dissonante silêncio
Por todo carinho no olhar,
nos gestos
Por toda a atenção
Por todo o ouvir e calar
Por minhas mãos
perdidas nas tuas
Pelas afinidades
Pelas músicas
Pelas lealdade
Por tuas viagens
Por me provocar saudades
Por retornar
Pelo sim
Pelo não
Pelo talvez
Pelo nunca
Pelo sempre
Pela ausência
Pela presença
Pela distância
Pela alegria
Pelo choro disfarçado
com voz embargada
Por dividir tudo isso
Pelos erros e acertos
Pelas qualidades e defeitos
Pela humanidade
Pela tranqüilidade
Pela delicadeza
Pela gentileza
Pelo brilho
Pela paz
Pelo encanto
Pela existência
Pela vida
Amo-te!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Pontos Cardeais

Somos pontos cardeais
Pontos distantes demais
Distância que não se quis
Distância que insistiu em querer
Pontos que desalinham
(e se alinham?)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Tatá disse

"O melhor remédio para amor não correspondido é amor correspondido".
Tarcísio Bispo

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Palavras


Eu não sei ao certo se as palavras nos cobrem ou se nos despem.
Eu não sei se elas dizem tudo o que deveria ser dito.
Eu não sei de onde surgem e por que chegam a nós.

Às vezes é riso, é choro, é dor, é estupenda felicidade.

Há um "sempre" em que num "sempre" quase sempre não se crê; é quando falam sem qualquer movimento labial, sem qualquer dissonante letra rasgando o silêncio.

É dita pelos olhos e quase sempre ninguém ouve.

Letra.
Sílaba.
Palavra.
Frase.
Textos.

Uma harmonia resultante de (in)tensa emoção.

[As palavras ganham magia na boca de quem ama, viram lágrimas naqueles que sofrem, são pedras que magoam ou flores oferecidas com amor...]

terça-feira, 22 de julho de 2008

Mito

Aos poucos
um mito se fez
erguer

Pedras sobrepostas,
idealizados pedestais,
pilares erguidos
sob os pés do mito

Mito
dizia-se mito,
agia como tal,
anunciava-se mito

Mito
pedia e era
atendido

Mito
pedia braço,
não-laço,
recebia abraço

Mito
dizia-se liberdade
e aprisionava

Mito
dizia-se sufocado
e sufocou

Mito
dizia-se humano
e não agiu
humanamente

Mito
erroneamente foi
aceito como
mito

Erguido em seu pedestal,
exposto ao vento,
ao sol, à chuva,
ao nada

Moldado em frágil
composição,
pilares sobre areia
movediça,
pingos de chuva
denigrem seus grãos

Resta-lhe diluir-se
sobre seus próprios
pés,
e esvai-se

Mito
fez-se o que não era
e agora já não é
mais

Aos poucos
um mito se desfaz
e cai

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Fato

Toda forma de desprezo depaupera o coração de quem oferece e machuca muito quem o recebe.
No entanto, desprezo só é desprezo enquanto for prezado.

domingo, 25 de maio de 2008

Honestizar, etc. e tal




Honesto (honestus), que nada tem de torpe.

Quem poderia imaginar o fato de a honestidade tornar-se uma notícia bombástica? Pois é, em pleno século vinte e um, a honestidade transformou-se em notícia de telejornal. Como? Simples.

Num belo dia de maio, o violinista Philippe Quint deixou num táxi nova-iorquino o seu violino- nada mais, nada menos que um Stradivaris de quatro milhões de dólares. O taxista percebendo o pequenino lapso de memória daquele músico, praticou o gesto que, para ele e para poucos outros, seria a coisa mais natural desse mundo: devolver o objeto ao seu respectivo proprietário. E, posso eu imaginar o estado emocional desse violinista ao perceber que seu valioso violino (entenda-se aqui o valor não-material) não mais o acompanhava. Se não entrou em pânico, esteve bem próximo disso. Em troca, o taxista recebeu a quantia de cem dólares e um concerto de meia hora em sua honra. Curioso, não?

Incrível pensar que a honestidade tornou-se atitude rara e digna de ser recompensada, e não só apenas reconhecida. E mesmo o fato de ser reconhecida nos sinaliza a possibilidade de ser algo não muito praticado entre os seres humanos. Alguém já imaginou ser recompensado pela prática da honestidade, da gentileza, da elegância? É. Dizem que evoluímos e que estamos progredindo. Às vezes penso (e não quero parecer radical, nem generalista) que a humanidade tem sido mais retrógrada hoje do que em séculos anteriores. Não sei se estamos aprendendo a ser indiferentes ou se estamos sendo treinados para isso, sem que percebamos. Parece-me ser natural; parece-me ser cultural.

As coisas boas da vida, os bons sentimentos e gestos estão sendo deixados para trás. Há quem não acredite em amizade verdadeira, ou que 'leve a mal' um gesto de carinho. Muitos não conseguem apreciar, nem sentir e nem perceber a paz que outras pessoas transmitem e, incomodadas com isso, fazem de tudo para alterar esse estado. Hoje em dia, ser gentil e cuidadoso pode significar aos outros que você tem interesses secundários, seja lá pelo que for. Ser generoso, é ser 'babaca', flexível demais.

Minhas palavras não se pretendem pessimistas, porém realistas em certos aspectos. Acredito veementemente que há tantas belas pessoas capazes de atitudes igualmente belas. Como acredito que todo homem é capaz de (re)aprender a praticar tudo aquilo que faz bem a si e ao outro. Amar a si é uma das primeiras formas de expressão por amor ao outro, pois só amando primeiro a si é que somos verdadeiramente capazes de amar ao outro. E por esse viés, pergunto: esquecendo-nos ou pouco praticando tudo aquilo dantes já descrito, estamos amando a nós? Não amar o 'outro' significa também que não estamos amando a nós mesmos.

Destarte, ainda há um certo grupo de pessoas que duvidam muito que outras possam ser honestas, gentis, carinhosas, pacíficas, generosas, amigas. Lembrei-me de uma amiga que de tão bom coração e por ser tão iluminada e complacente em seu ambiente de trabalho, foi ameçada por outro alguém. Há quem não suportou enxergar o bom coração que ela tem e zangou-se de tal forma que a feriu verbalmente.

O meu real desejo é que nossas boas e simples atitudes sejam restauradas e vivenciadas todos os dias. Fazem parte de nossa essência e, se porventura não faz parte da vida de alguém, certamente não será difícil de ser aprendida e apreendida. Tudo o que é bom para mim e para o outro deve ser inerente à minha natureza, à minha cultura, aos meus gestos, ao meu viver.

domingo, 11 de maio de 2008

Ode aos pequenos grandes sábios




Que palavras falariam o suficiente sobre esses rostinhos?

Que eles são lindos de dentro pra fora e de fora pra dentro, todo mundo já percebeu. Interessante, mesmo, é observar a forma como eles descobrem o mundo. Para eles, uma só palavra pode reger toda a atitude do descobrir: Admiração. E, levando-se em conta o fato de que a admiração constitui uma das atitudes pré-filosóficas, eles, assim como todas as crianças, verdadeiramente são grandes filósofos. Esses pequenos encantam-se com absolutamente tudo.

Admirar faz com que esses olhinhos brilhem. Constatar esse fato não é tarefa difícil.

Deparam-se com uma flor e logo admiram sua cor. Querem tocá-la, cheiram, arrancam as pétalas e franzem a testa no momento da descoberta. Não satisfeitos, muitas vezes a põem na boca; querem sentir o gosto e fazem careta se não for tão doce o sabor dessa descoberta - embora eles não estejam preocupados com o sabor. Pronto! Agora sabem o que é uma flor. Mas hão de descobrir muitas outras flores e seus aromas.

Passeiam pelas ruas. Um cachorro dobra a esquina. Os olhos arregalados e brilhantes perguntam: "O que é isso?". E nós, 'infalíveis' informantes desse mundo, dizemos com voz de mimo: "É um 'au-au'. É um amiguinho. Olha só que fofinho...!" Desdobram-se e soltam nossas mãos. Querem ir ao encontro do 'au-au', tocá-lo e certificar-se se é 'fofinho', mesmo. Para os pequenos, é maravilhosa a sensação do roçar da língua do cachorro nas mãos deles. "O focinho é geladinho, o pêlo é macio e andam sobre quatro patas... Nossa! Quanta coisa diferente de mim!!"

Calçados com meias e pequeninos sapatos, descobrem que ficar descalço e caminhar dessa forma pode ser muito relaxante. Andar pela grama? Experimentam uma nova textura. "É super legal! É mais geladinho para os pés... Sinto cócegas!" Sentir a areia por entre os dedos pode ser igualmente maravilhoso como tocá-la com as mãos. Deitar e rolar no chão? Ver o mundo rodar? Tomar banho de chuva? "Ah! Isso é bom! Quero fazer mais vezes!"

À noite, ainda não exaustos das descobertas do dia, olham para o céu e perguntam o porquê de tudo ficar escuro. Mas, há pequenos pontos brilhantes, tão pequenos que cabem na mão. São muitos os pontos brilhantes e não conseguem contar. Na visão deles a Lua é maior, porém nome pequeno e só há uma na imensidão do Universo. É mais fácil contar e chamá-la Lua. Perplexos diante dos mistérios do Universo, são dessa forma apresentados à Lua e às estrelas.

Conhecer Lua e estrelas não é muito nem é tudo. Querem mais. Querem tocá-las, colocar na boca, abraçá-las, ouvi-las, sonhá-las, alcançá-las. Mas, como? O que diremos a esses pequenos grandes sábios? Os adultos que acham que sabem tudo, falam sem pensar uma grande bobagem: "Não! Essas você não pode tocar. Estão longe demais...". Os pequenos que até então não haviam descoberto a decepção, são apresentados a ela. Certamente, os adultos que assim respondem receberam a mesma resposta e habituaram-se a ela e à impossibilidade de tocar, mesmo que de forma que só aqueles que desejam tocar as estrelas e a Lua, assim o sabem. Bilac bem descreveu essa sensação: "Amai para entendê-las! Pois, só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender as estrelas".

E eu poderia falar em tantas outras descobertas, dos primeiros passos, das primeiras palavras, a primeira ida à praia, os primeiros amiguinhos, o primeiro dentinho mole, o primeiro dia de aula...

E não poderia esquecer os quatro rostinhos que ilustram essas palavras: Kássia, Abrahão, Alvinho e Vital. Quatro belas vidas, quatro belas obras de arte.

Eles estão num momento muito especial de suas vidas. Estão descobrindo... estão admirando!!!

Sem tantas delongas, tenho alguns pedidos a lhes fazer:

Não esqueçam que brincar é muito bom. Muitos que crescem, esquecem de brincar, perdem essa capacidade, envergonham-se. Mas, levem em si as lembranças do brincar e brinquem muito, mesmo quando adultos.

Não se apressem tanto em crescer. Ser criança não é apenas uma fase da vida, mas um estado de espírito que deve ser perpetuado durante toda a vida.

A verdade sempre vos fará bem (especialmente as vossas verdades), embora muitos possam fazê-los desacreditar da verdade. Falar e praticar a verdade não será pesado às suas vidas, porém tudo será leve se for regido pela verdade.

Não se preocupem em ser perfeitos. Sejam bons e pacíficos. Sejam fraternos e verdadeiros amigos. Pratiquem a generosidade e nunca dêem as costas àqueles que vos estenderem as mãos.

Amem a sabedoria, procurem a inteligência, a humildade e a simplicidade. Elas estarão sempre à sua espera.

Peçam a Deus a capacidade de enxergá-lo e reconhecê-lo naquelas coisas e momentos que parecerem mínimos, mas que na verdade, são grandes acontecimentos.

Encontrem a felicidade em tudo o que há de mais simples. Sejam completos de felicidade. Encontrar a felicidade no que há de mais simples é ser inundado da verdadeira felicidade.

Levem a paz e o amor aonde quer que vocês tenham que ir.

Ademais, sorriam, sorriam muito!!!!!

E Admirem, SEMPRE!

sábado, 12 de abril de 2008

Uns Versos


Sou sua noite, sou seu quarto
Se você quiser dormir
Eu me despeço
Eu em pedaços
Como um silêncio ao contrário
Enquanto espero
Escrevo uns versos
Depois rasgo

Sou seu fado, sou seu bardo
Se você quiser ouvir
O seu eunuco, o seu soprano
Um seu arauto
Eu sou o sol da sua noite em claro,
Um rádio
Eu sou pelo avesso sua pele
O seu casaco

Se você vai sair
O seu asfalto
Se você vai sair
Eu chovo
Sobre o seu cabelo pelo seu itinerário
Sou eu o seu paradeiro
Em uns versos que eu escrevo
Depois rasgo

(Adriana Calcanhoto)